Biomimetismo no mundo do skincare: uma tendência coreana?

Publicado a 25 Junho, 2025

A utilização de moléculas biomiméticas nas áreas da medicina e da cosmética já não são novidade, embora o termo tenha vindo a ganhar uma fama peculiar por questões de marketing. Com a K-beauty na ribalta, temos vindo a perceber que a filosofia da cosmética oriental tem, realmente, semelhanças com o conceito de biomimetismo. Para o desenvolvimento deste artigo, contamos com Isabel Maria Almeida, Farmacêutica Especializada em Dermocosmética, amante de skincare coreana e consultora de cuidados de pele, para nos falar sobre cosmética coreana, PDRN e produtos biomiméticos.

A ciência evolutiva do biomimetismo

Há milhares de anos atrás, os seres humanos recorriam a produtos naturais para nutrir a pele - quem nunca ouviu a história de Cleopatra e os seus prolongados banhos de leite de burra? - e rejuvenescer a alma. Com o tempo, as pessoas foram percebendo que folhas, caules, raízes e frutos tinham diferentes propriedades e, portanto, ofereciam diferentes benefícios. Assim que cientistas começaram a estudar extratos de plantas, perceberam que muitas estruturas moleculares - como ácidos gordos, ceramidas e açúcares - se assemelhavam aos componentes de células humanas. Ainda que com consideráveis diferenças de pesos moleculares e grupos funcionais, certas moléculas de extratos naturais são capazes de mimetizar as do nosso organismo e, por conseguinte, provocar o mesmo efeito na nossa pele. Daqui surge o termo biomimetismo.

Resumindo e contextualizando, substâncias biomiméticas são aquelas cujas ações/ funções “imitam” os processos naturais do organismo e, neste caso particular, da pele.

Biomimetismo aplicado à cosmética

Recorrendo a ativos de cosméticos semelhantes aos produzidos na pele, o skincare biomimético potencia as atividades naturais da pele. Por exemplo, todas as noites regeneramos colagénio. Para que o processo de regeneração ocorra, são precisas enzimas, cofatores e várias outras moléculas. Skincare biomimético consiste, precisamente, em fornecer à pele algumas substâncias idênticas a esses cofatores, de modo a acelerar o processo natural e a sinalizar que, tendo todos ingredientes, podemos fazer um banquete completo.

Moléculas biomimeticas


No que toca à cosmética, isto envolve utilizar ingredientes e formulações que se assemelham aos componentes e processos naturais da pele, “com recurso a substâncias já conhecidas da medicina tradicional” - acrescenta Isabel Almeida. Em teoria, estes produtos são desenvolvidos para emancipar, na pele, as capacidades naturais de auto-regeneração, auto-reparação e auto-proteção. Uma vez que é precisamente esta a filosofia oriental, já começamos a perceber por que razão se associa biomimetismo a skincare coreano.

Benefícios do biomimetismo nos cuidados de pele

Lanço o desafio de pensares “Quão confortável me sinto em saber que os ativos que aplico na minha pele estão a fazê-la trabalhar em prol de si mesma?”.

Correndo o risco de desenvolver aqui uma falácia, a ideia do biomimetismo parece idêntica aos dos investimentos financeiros: “ter o meu dinheiro a trabalhar para mim enquanto durmo”, como diz Robert Kiyosaki, autor do famoso best-seller Pai Rico, Pai Pobre.

Pessoalmente, agrada-se a ideia de:

  • poder reconhecer a ciência da cosmética como uma aliada natural à minha pele , que procura encaminhá-la no sentido certo, quase como uma mamã que segue de braços abertos atrás do seu bebé que não segue em linha reta;
  • estar a contribuir para uma cosmética moderna, cada vez mais personalizada, que vai em busca de inovação e de novas soluções para os problemas de pele;
  • promover a saúde cutânea com ativos que mantenham intacta a barreira cutânea, sempre. Como refere a Isabel, os produtos coreanos focam-se imenso na manutenção da função barreira, recorrendo a ativos como ceramidas - presentes na maioria dos cremes hidratantes coreanos;
  • reduzir a inflamação da pele, graças à harmonia com os componentes naturais da epiderme. A Isabel atribui a medalha desta categoria à biocompatibilidade, “numa tentativa de serem mais compatíveis com as estruturas celulares, os produtos acabam por ter mais tolerabilidade”, e eu não podia estar mais de acordo;
  • ter ações mais eficientes, que se espera quando a pele recebe ativos que lhe são familiares e, portanto, já sabe para onde os deve mobilizar. A nossa farmacêutica especializada em dermocosmética também acredita que possa haver mais facilidade na absorção das moléculas, precisamente pelo que explicou no ponto anterior. “Nos produtos coreanos encontramos, muitas vezes, produtos fermentados. A digestão de grandes moléculas, como proteínas de arroz, já facilita a absorção porque a substância chega à epiderme com um peso molecular muito mais baixo”, acrescenta.
Fermentação de proteínas

Exemplos de substâncias biomiméticas

Por falar em melhorias na absorção de ativos, a inclusão de vesículas de lipossomas é uma excelente estratégia para uma boa penetração e entrega de ativos que, de outra forma, não atravessariam o estrato córneo. A Isabel traz-nos dois exemplos maravilhosos: o creme de olhos Revive Eye Serum, da Beauty of Joseon, que incorpora retinal nos seus lipossomas; e o Exosome Cica Ampoule, da Medicube, que contém exossomas de Centelha Asiática, com 12 tipos diferentes deste ingrediente.

Para além de vesículas, das ceramidas, do colagénio e de péptidos diversificados, a Isabel fala-nos, ainda, de um tema contemporâneo: o PDRN. Por definição, polidesoxirribonucleotídeo é uma tecnologia recente que consiste na entrega de nucleótidos do DNA de peixe - “especificamente do salmão, que é o que apresenta maior compatibilidade com o DNA humano, ao invés do PDRN de plantas”, defende a Isabel - na derme da pele humana.

A nossa parceira farmacêutica aponta a Rejuran como uma marca de confiança no desenvolvimento de produtos com PDRN e, acrescenta, “embora seja, claramente, mais eficaz quando injetado, já podemos encontrar skincare com nucleótidos de salmão”. A categoria de bioestimulante confere ao PDRN a função de estimular a regeneração celular, a produção de colágeno e a reparação de tecidos, entregando efeitos anti-envelhecimento.

Terminamos com um apelo importante: por muito promissor que seja o skincare biomimético, reforçamos que os resultados pretendidos são atingidos com consistência. Uma rotina de pele que, efetivamente, atue nas disfunções de pele só consegue fazer efeito quando aplicada diariamente, duas vezes ao dia.



Adriana Lemos & Isabel Maria Almeida